Seria possível ainda um salto na história da arte? Um salto da nova mídia? A pergunta é boa quando tantos mitos e tantas certezas são derrubados, quando se criam novas formas de interação e de participação das pessoas na construção cotidiana da comunicação.
Por que não uma revolução via arte eletrônica?
Desde que a tecnologia começou a mudar o cenário da mídia que se assiste a experimentos artísticos instrumentados por ela. Andy Warhol usou uma câmera portátil para documentar seu cotidiano nos anos 60. Quem não viu uma vídeo-instalação de Nam Jun Paik dos anos 70? Nos anos
No entanto, ao somar todas as formas sob as quais a arte digital se exibe, ou se conforma, alguém consegue dar um exemplo de algo tão significativo para a arte quanto, por exemplo, a Gioconda de Da Vinci, As Meninas de Velázquez ou a Montanha de Santa Vitória, de Cézanne?
Se as origens da arte da nova mídia remontam à invenção da fotografia, no século 19, e se esse tipo de manifestação artística levou mais de 150 anos para explodir em múltiplas configurações, e se o excesso de formas e fôrmas torna o seu desenvolvimento mais desafiador – nada disso elimina a possibilidade real do artista dar um salto do tamanho daquele que foi dado na história da arte por gente como Da Vinci, Velázquez ou o próprio Cézanne. Deixaram obras que valem por si, independente de significados, mitos, leituras e interpretações dadas pelos críticos: a beleza é indiscutível, qualquer pessoa frui a obra, ou a sua reprodução, com a intensidade e a reverência que só o belo consegue provocar.
Apesar da explosão das artes fruto das novas tecnologias e da “conversa” que elas costumam ter com as artes tradicionais (me refiro, por exemplo, à colagem da metade esquerda do rosto de Mona Lisa com a metade direita do rosto de Leonardo da Vinci realizada por Lilian Schwartz em 1987; ou o vídeo em alta definição “89 Seconds at Alcazar” no qual Eve Sussman movimenta os personagens de Velázquez no óleo As Meninas, de 2004) nada, absolutamente nada, conseguiu ainda superar algo que parte dos conteúdos na rede já superou: o da mera transposição para a web de conteúdos e formas cristalizados pelas velhas artes. Ou seja, é o mesmo desenho velho de guerra, a mesma forma de pintar, abstrata ou não, que se reproduz no monitor. Aposentaram-se os pincéis e a tinta tradicionais, usam-se os pincéis e as tintas virtuais. Quando muito, o desenho ou a fotografia ganham movimento, como no velho cinema. E a escultura, essa ganha três dimensões no monitor, coisa que ela já havia conquistado no holograma, ou seja, a sensação de profundidade, algo que ela, a escultura, possui
Nenhum dos incensados artistas digitais conseguiu dar um salto no sentido de produzir arte com os elementos interativos e com todas as possibilidades da nova mídia, todas as que não reproduzem formas tradicionais de imagem e texto, sejam estáticas ou
Portanto eis aí uma boa pergunta para os artistas da pós-modernidade: dado que a nova mídia é pervasiva (palavra que vem do inglês pervasive, significa algo que está em todos os lugares), ainda é possível dar um salto na história da arte?
Escrito por Caio Túlio Costa - jornalista, diretor presidente do Internet Group (iG + iBest + BrTurbo). E-mail: caiotulio@ig.com.br. Texto publicado na edição de 25/9/2006 do semanário Meio&Mensagem, pág. 9.
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